A história por trás do vilarejo de pedra que guarda uma das matrizes mais antigas de Minas Gerais
Entre Ouro Preto e Ouro Branco, um vilarejo com uma única rua guarda uma das matrizes mais antigas de Minas Gerais do século XVIII tombada pelo IPHAN, registros de batismo desde 1714 e a Serra do Espinhaço como pano de fundo
Escrito por:
Igor Souza
Publicado em:
07/07/2026
Entre Ouro Preto e Ouro Branco, na rodovia MG-129, existe uma bifurcação quase imperceptível. Quem entra ali encontra Itatiaia — distrito de Ouro Branco com cerca de 300 moradores, uma única rua principal, murais de arte urbana nas fachadas coloniais e uma matriz do século XVIII tombada pelo IPHAN que tem registros de batismo desde 1714. É uma das igrejas mais antigas de Minas Gerais, quase invisível nos roteiros, inteiramente visível para quem para o carro e sobe as pedras.
Qual é a origem do vilarejo de Itatiaia?
O arraial surgiu no final do século XVII, quando ex-integrantes da bandeira de Borba Gato seguiram pelo vale dos rios em busca de ouro. Itatiaia foi, por muito tempo, distrito de Ouro Preto antes de passar para o município de Ouro Branco. A comunidade se formou ao redor de uma primeira chapel dedicada a Santo Antônio, e os documentos da Irmandade registram o primeiro batismo em 20 de agosto de 1714 — o que confirma a presença estabelecida já nas primeiras décadas do século XVIII.
O nome "Itatiaia" vem do tupi e significa "pedra pontiaguda ou lascada", referência direta ao paredão de quartzito da Serra do Espinhaço que domina a paisagem ao redor.
O que torna a Igreja Matriz de Santo Antônio tão importante?
A Igreja Matriz de Santo Antônio de Itatiaia é uma das primeiras construídas na região de Minas Gerais. Segundo o IPHAN, a parte dos fundos da edificação, em estrutura de madeira com vedação em pau-a-pique, é a primitiva chapel original, à qual foram acrescidas, no final do século XVIII e início do XIX, a nave, as torres e o frontão em pedra.
O interior guarda cinco altares; do retábulo do Rosário há registros precisos: entalhes de Lourenço Rodrigues de Souza (1792) e pintura e douração de Manoel Ribeiro Rosa (1793). O forro da nave, em gosto rococó, exibe representação da Virgem, do Menino e do padroeiro no medalhão central.
A construção foi tombada pelo IPHAN em 3 de outubro de 1983, na inscrição nº 555 do Livro do Tombo Belas Artes. A restauração, realizada entre 1982 e 1984 em convênio entre IPHAN, Universidade Federal de Ouro Preto e Açominas, salvou o templo de um estado quase ruinoso.


Igreja histórica de Itatiaia, distrito de Ouro Branco, com fachada colonial azul e amarela - Foto: Igor Souza


Igreja histórica de Itatiaia, distrito de Ouro Branco, com fachada colonial e céu azul - Foto: Igor Souza
O que ver e fazer em Itatiaia além da matriz?
O distrito tem uma única rua principal onde se concentra tudo. Em 2014, artistas mineiros realizaram uma intervenção de revitalização que cobriu fachadas e muros com murais contemporâneos — uma combinação inusitada com o casario colonial. Os principais atrativos são:
Cachoeira de Itatiaia: acesso pela Pousada Ecorsini, a 450 metros do estacionamento; trilha sinalizada com corrimões de madeira; primeira queda com poço para banho; entrada cobrada pelo uso do estacionamento;
Monumento Natural Estadual de Itatiaia: área de proteção com mais de 3.200 hectares entre Ouro Branco e Ouro Preto; campos rupestres, formações rochosas e trilhas como a Trilha da Canela de Ema; criado em 2009;
Culinária mineira no fogão a lenha: restaurantes simples com almoço farto e vista para a serra; o Espaço Araucária é o mais citado pelos visitantes.
A Festa de Santo Antônio mobiliza toda a comunidade anualmente com trezena de rezas, missa solene, procissão e levantamento dos mastros — prática colonial mantida intacta. O Tira Gosto Cultural, realizado no adro da matriz, reúne gastronomia, música ao vivo e artesanato.
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Como chegar e o que saber antes de ir?
Itatiaia fica a 12 quilômetros do centro de Ouro Branco pela rodovia MG-129, e a 21 quilômetros de Ouro Preto no sentido contrário. A distância de Belo Horizonte é de cerca de 112 quilômetros. O acesso é totalmente asfaltado.
Pontos práticos para o planejamento:
Combinação de roteiro: Ouro Branco e Itatiaia no mesmo dia; a Matriz de Ouro Branco, com pinturas de Mestre Ataíde, fica a 12 km;
Cachoeira: verificar condições após chuvas; o trecho final da trilha tem toras de madeira sobre o curso d'água;
Melhor época: inverno seco, de junho a agosto, para trilhas e visitas à serra;
Igreja: confirmar horários de visitação com a comunidade local antes de ir.
Itatiaia não tem placa indicativa na rodovia nem loja de souvenir. Tem uma matriz que resistiu a tempestades, a quase abandono e ao tempo, e que guarda em suas pedras e em seu forro pintado três séculos de uma comunidade que se formou no ciclo do ouro e nunca foi embora.
Igor Souza
Igor Souza é fotógrafo, engenheiro civil e criador de conteúdo especializado em turismo, com olhar atento para os encantos de Minas Gerais. Une técnica e sensibilidade para retratar paisagens, construções históricas e experiências autênticas pelo interior mineiro. Além da atuação na engenharia, é apaixonado por contar histórias através de imagens e palavras, valorizando a cultura, a fé e a simplicidade de cada lugar.


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