A Guerra dos Emboabas, a Sedição de 1720 e a Inconfidência Mineira — esse distrito viveu tudo isso e fica a menos de 80 km de BH
Um distrito de Ouro Preto foi palco dos três maiores conflitos do Brasil colonial e fica na estrada entre BH e Ouro Preto. Poucos param para entender o que aconteceu ali
Escrito por:
Igor Souza
Publicado em:
10/08/2026


Fachada de igreja histórica branca e amarela em restauração no distrito de Cachoeira do Campo, Ouro Preto - Foto: Igor Souza
Cachoeira do Campo é o maior distrito de Ouro Preto, com mais de 12 mil habitantes, e está a cerca de 75 quilômetros de Belo Horizonte pela Rodovia dos Inconfidentes. Quem faz esse trajeto vê as lojas de artesanato nas margens da BR-356 e segue em frente. É um erro. O distrito foi palco de três dos episódios mais decisivos da história colonial brasileira em menos de 80 anos, e os prédios onde tudo aconteceu ainda estão de pé.
Por que Cachoeira do Campo virou o centro do poder colonial em Minas?
O distrito surgiu entre 1674 e 1675 com a bandeira de Fernão Dias Paes em busca de esmeraldas. A fertilidade do solo e o clima ameno fizeram o lugar crescer como centro agrícola, e sua posição estratégica entre as principais estradas do século XVIII colocou Cachoeira no caminho de tudo que importava na capitania.
Com o tempo, o distrito foi acumulando estruturas de poder que poucas cidades do interior guardam até hoje:
O Palácio dos Governadores, construído em 1773, onde os capitães-generais residiam e tomavam decisões longe do barulho de Vila Rica;
O Quartel da Cavalaria, erguido em 1775, que abrigou o Regimento Regular de Cavalaria de Minas, célula-máter da Polícia Militar do estado;
A Matriz de Nossa Senhora de Nazaré, construída entre 1700 e 1725, palco dos episódios mais decisivos do período colonial.
A Guerra dos Emboabas foi decidida aqui em 1708
O conflito nasceu da disputa entre bandeirantes paulistas e portugueses forasteiros pelo controle das minas de ouro. Cachoeira do Campo foi o cenário da batalha decisiva entre 1708 e 1709. Manuel Nunes Viana venceu e foi sagrado na Matriz de Nossa Senhora de Nazaré por aclamação popular: o primeiro governador eleito pelo povo da história das Américas.
A Coroa não reconheceu a eleição e nomeou seu próprio representante. Mas o conflito forçou a criação da Capitania de São Paulo e Minas de Ouro em 1709, que depois originou a Capitania de Minas Gerais. Cachoeira do Campo saiu da guerra como sede administrativa e militar da região.
A Sedição de 1720 e a prisão de Felipe dos Santos na praça da matriz
Felipe dos Santos e Pascoal Guimarães lideraram uma revolta contra a cobrança de um quinto de todo o ouro extraído pela Coroa. O episódio mais dramático aconteceu na praça em frente à Matriz de Nossa Senhora de Nazaré: a prisão de Felipe dos Santos enquanto incitava o povo. Ele foi condenado à morte e as fontes históricas divergem sobre a execução:
Alguns relatos descrevem enforcamento seguido de esquartejamento;
Outros apontam o corpo amarrado a cavalos que saíram em disparada.
Pascoal Guimarães foi condenado e teve sua propriedade incendiada. O resultado foi o desmembramento da capitania, criando oficialmente a Capitania de Minas Gerais com Vila Rica como capital.
O Quartel da Cavalaria foi o coração da Inconfidência Mineira
Tiradentes trabalhou no Quartel da Cavalaria e foi nele que se tornou alferes. Em 1789, o edifício foi um dos focos principais da Inconfidência Mineira. O plano previa que dali sairia o batalhão para prender o Visconde de Barbacena, que residia no Palácio dos Governadores em Cachoeira. Os inconfidentes usavam uma das torres da Igreja de Nossa Senhora das Dores para monitorar a movimentação do governador sem ser vistos. Joaquim Silvério dos Reis traiu o movimento e o levante nunca saiu do papel.
O antigo quartel funciona hoje como Colégio Dom Bosco, administrado pelos salesianos desde 1896. O brasão da Coroa Portuguesa atribuído ao Aleijadinho permanece acima da porta principal.
+ Leia também: O cenário que você precisa visitar pelo menos uma vez na vida
O que ainda está de pé e como visitar
A Matriz de Nossa Senhora de Nazaré abre para visitação gratuita todos os dias das 9h às 11h e das 14h30 às 18h. O interior tem altares com douramento e pinturas do barroco que surpreendem quem esperava uma igreja simples. Às margens da BR-356, a Praça do Artesão completa o roteiro com produção regional e gastronomia típica.
Para montar a visita com foco histórico, os pontos essenciais são:
Matriz de Nossa Senhora de Nazaré, entrada gratuita, com o interior barroco preservado;
Colégio Dom Bosco, antigo Quartel da Cavalaria, com o brasão atribuído ao Aleijadinho na entrada;
Igreja de Nossa Senhora das Dores, usada como ponto de vigilância pelos inconfidentes em 1789;
Praça do Artesão, às margens da BR-356, com artesanato regional e culinária típica mineira.
Igor Souza
Igor Souza é fotógrafo, engenheiro civil e criador de conteúdo especializado em turismo, com olhar atento para os encantos de Minas Gerais. Une técnica e sensibilidade para retratar paisagens, construções históricas e experiências autênticas pelo interior mineiro. Além da atuação na engenharia, é apaixonado por contar histórias através de imagens e palavras, valorizando a cultura, a fé e a simplicidade de cada lugar.


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