A ferrovia que uniu Bahia e Minas fechou em 1966, mas em Ladainha os pontilhões de ferro e a estação seguem de pé
Os trens pararam em 1966, mas nesta cidade mineira a estação de 1918, um túnel e um pontilhão de ferro seguem de pé. Veja o que restou da linha
Escrito por:
Igor Souza
Publicado em:
28/09/2026
A Estrada de Ferro Bahia-Minas inspirou "Ponta de Areia", a canção de Milton Nascimento e Fernando Brant. Pouca gente sabe, porém, que um dos maiores conjuntos do que sobrou da linha está em Ladainha, no Vale do Mucuri. Ali, a estação e o pontilhão de ferro continuam no lugar, quase seis décadas depois da passagem do último trem.
Que ferrovia era essa, afinal?
A Bahia-Minas nasceu para levar madeira do nordeste mineiro até o litoral baiano. As obras começaram em 1881, a partir de Caravelas, e os trilhos avançaram devagar pelo interior. Alguns marcos mostram esse ritmo:
1882: os trilhos chegam à divisa com Minas Gerais;
1898: a ferrovia alcança Teófilo Otoni;
1942: a linha chega a Araçuaí, seu ponto final;
1966: a operação é encerrada.
O primeiro trecho, de 142 quilômetros, foi projetado pelo engenheiro Miguel de Teive e Argollo. No auge, a linha somava 578 quilômetros em bitola métrica, entre Ponta de Areia, na Bahia, e Araçuaí, no Vale do Jequitinhonha. O fim veio com a concorrência das rodovias e a falta de investimento público no transporte sobre trilhos, entre outros problemas de gestão.
Ladainha nasceu em volta da estação
A estação de Ladainha foi inaugurada em 1918 e passou a ser a principal porta de entrada do lugar. O povoado cresceu a partir dela. Segundo reportagem do jornal Estado de Minas, a ferrovia construiu cerca de 50 casas para os funcionários. O município só seria emancipado em 1948, e a população chegou a cerca de 21 mil habitantes nos anos 1960.
Até o nome tem ligação com os trilhos. Conta a tradição local que um senhor apelidado de Podô rezava terços e ladainhas na região. Quando o coronel José Ribeiro foi chamado a batizar a estação, sugeriu em tom de brincadeira "Ladainha do Podô". O nome acabou valendo para a estação, o povoado e o município.


Antiga estação ferroviária de Ladainha, MG, cercada por praça arborizada sob céu azul - Foto: Igor Souza


Pontilhão de ferro com vista para formação rochosa e mata verde em Ladainha, MG - Foto: Igor Souza
Por que a oficina de locomotivas mudou a cidade?
Além da estação, Ladainha recebeu uma oficina de manutenção que chegou a empregar 130 pessoas. Ali eram feitos serviços pesados que atendiam a linha:
Consertos de locomotivas;
Reparos em vagões;
Montagem de máquinas.
Em 1950, uma usina hidrelétrica de 500 cavalos-vapor passou a abastecer a oficina e a cidade, no lugar dos motores a vapor. A empresa também ergueu um cinema para trabalhadores e moradores. De acordo com o Estado de Minas, o primeiro filme exibido ali foi King Kong.
O que ainda pode ser visto de pé?
Ladainha guarda um dos maiores conjuntos preservados do patrimônio ferroviário da Bahia-Minas. A estação foi protegida pelo município por meio do Decreto nº 09/2009 e hoje funciona como rodoviária, o que mantém o prédio em uso no dia a dia. No tempo dos trens, ela reunia plataforma coberta, salas de espera, bilheteria, sala do telégrafo e escritório.
Perto da entrada da cidade, o pontilhão de ferro atravessa a paisagem próxima à barragem Wenefredo Portela, com a Pedra de Ladainha ao fundo. Para quem quer ver esse conjunto de perto, o roteiro inclui:
Antiga estação, hoje rodoviária;
Pontilhão de ferro na entrada da cidade;
Túnel por onde passavam as locomotivas;
Oficina de máquinas, perto do centro;
Prédio do antigo cinema.
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Como a Rota Bahia-Minas trouxe os trilhos de volta ao mapa?
Em 2019, o Sebrae e o Circuito Turístico das Pedras Preciosas criaram a Rota Bahia-Minas. É um percurso de mais de 340 quilômetros, inspirado no antigo traçado da ferrovia, que passa por seis municípios: Araçuaí, Novo Cruzeiro, Ladainha, Poté, Teófilo Otoni e Carlos Chagas.
O trecho entre Ladainha e Poté soma 39 quilômetros, com terreno variado. Para quem pedala ou caminha, parar na estação e no pontilhão ajuda a entender, no chão, o que a ferrovia representou para o nordeste de Minas antes de 1966. Essa história também foi tema do documentário "Estrada Natural", de 2023, com relatos de antigos ferroviários e moradores da região.
Igor Souza
Igor Souza é fotógrafo, engenheiro civil e criador de conteúdo especializado em turismo, com olhar atento para os encantos de Minas Gerais. Une técnica e sensibilidade para retratar paisagens, construções históricas e experiências autênticas pelo interior mineiro. Além da atuação na engenharia, é apaixonado por contar histórias através de imagens e palavras, valorizando a cultura, a fé e a simplicidade de cada lugar.


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