A ferrovia mais antiga em operação contínua do Brasil liga São João del-Rei a Tiradentes desde 1881
Locomotivas a vapor, trilhos de 76 centímetros e um passeio inaugurado por Dom Pedro II: a viagem de trem mais antiga do país continua firme nos trilhos
Escrito por:
Igor Souza
Publicado em:
16/10/2026
Dom Pedro II estava a bordo quando o primeiro trem chegou a São João del-Rei, em 1881. Agora, 145 anos depois, a Maria Fumaça ainda percorre cerca de 12 km sobre trilhos estreitos até Tiradentes, puxada por locomotivas a vapor, na ferrovia mais antiga em operação contínua do Brasil.
Como começou a história da Maria Fumaça?
O trem inaugural da Estrada de Ferro Oeste de Minas chegou a São João del-Rei na noite de 28 de agosto de 1881, com Dom Pedro II e a imperatriz Teresa Cristina a bordo. Quem conduzia a locomotiva naquela viagem histórica era o maquinista Felipe Marcheti, segundo os registros da época.
A linha transportou cargas e passageiros por cerca de cem anos, até o fim da atividade comercial. Em vez de ser desativado, o trecho até Tiradentes foi preservado e ganhou uma nova função como passeio turístico. A trajetória da ferrovia pode ser contada por três datas:
1881: inauguração com a presença do imperador;
1982: fim da atividade comercial, com o trecho preservado para turismo;
1989: tombamento do complexo ferroviário pelo Iphan.
Por que o trem é chamado de Bitolinha?
O apelido vem da bitola, a distância entre os trilhos. Na linha entre São João del-Rei e Tiradentes, ela tem apenas 76 centímetros, bem menos do que o padrão usado na maior parte das ferrovias brasileiras, o que deixa o trem mais estreito que o comum.
A Estrada de Ferro Oeste de Minas chegou a ter mais de 600 km de extensão, mas o trecho atual é o único que sobreviveu. Locomotivas a vapor e vagões de madeira centenários seguem em uso, o que torna a viagem uma aula prática de história ferroviária.
O que se vê pela janela durante o passeio?
A viagem é curta, mas a paisagem muda bastante ao longo do caminho. O trem atravessa paisagens típicas do Campo das Vertentes, e o barulho da locomotiva e o cheiro da fumaça fazem parte da experiência do começo ao fim, para quem embarca em São João del-Rei ou em Tiradentes.
O passeio passa rápido, por isso vale deixar o celular de lado em boa parte do trajeto e prestar atenção no que aparece pela janela do vagão. O percurso reserva dois cenários marcantes para quem está a bordo, principalmente em dias de céu aberto:
Trechos às margens do rio das Mortes;
A Serra de São José, que o trecho margeia até chegar a Tiradentes.


Maria-fumaça com vagões de madeira percorrendo trilhos cercados pela vegetação em Tiradentes, MG - Foto: Igor Souza


Locomotiva a vapor número 68 da Maria-fumaça em meio à vegetação e montanhas de Tiradentes, MG - Foto: Igor Souza
A ferrovia passa por uma nova fase em 2026
Depois de cerca de 30 anos sob responsabilidade da Ferrovia Centro-Atlântica, controlada pela VLI, o complexo mudou de mãos. A empresa operou até 31 de agosto de 2026, e a partir de 1º de setembro a gestão passou para as prefeituras de São João del-Rei e de Tiradentes.
Em 30 de setembro, a ANTT autorizou a Associação Brasileira de Preservação Ferroviária a operar o trem turístico, em caráter provisório, por até seis meses. O governo federal também anunciou cerca de R$ 16 milhões do Novo PAC para reformar o Museu Ferroviário.
Quais são os horários do trem?
Cada trajeto leva cerca de 40 minutos, e as saídas se concentram no fim de semana. Como a operação está em transição, horários e valores das passagens podem mudar, por isso o ideal é confirmar com o operador antes de montar o roteiro de viagem.
A programação divulgada junto com a autorização da nova operadora prevê saídas de sexta a domingo, com horários específicos nos feriados prolongados. Pela grade informada, os embarques nas duas estações acontecem nos seguintes horários:
De São João del-Rei, às sextas e sábados, às 10h e às 14h;
De São João del-Rei, aos domingos, às 10h;
De Tiradentes, às sextas e sábados, às 11h30 e às 15h30;
De Tiradentes, aos domingos, às 11h30.
+ Leia também: O cenário que você precisa visitar pelo menos uma vez na vida
O complexo ferroviário merece uma visita à parte
A estação de São João del-Rei não é só ponto de embarque. O complexo reúne museu, oficinas e outras estruturas ligadas à história dos trilhos, e por isso vale chegar com antecedência para circular pelo espaço antes de entrar no vagão.
As reformas previstas com os recursos federais devem abrir à visitação todas as partes do conjunto, que já guarda peças importantes da memória ferroviária de Minas. Entre os destaques que podem entrar no roteiro antes ou depois do passeio de trem, vale conhecer:
O Museu Ferroviário, também tombado pelo Iphan em 1989;
A rotunda, com 25 linhas que convergem para um girador manual;
As oficinas onde locomotivas e vagões recebem manutenção.
Igor Souza
Igor Souza é fotógrafo, engenheiro civil e criador de conteúdo especializado em turismo, com olhar atento para os encantos de Minas Gerais. Une técnica e sensibilidade para retratar paisagens, construções históricas e experiências autênticas pelo interior mineiro. Além da atuação na engenharia, é apaixonado por contar histórias através de imagens e palavras, valorizando a cultura, a fé e a simplicidade de cada lugar.


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