A fábrica têxtil abandonada do século XIX que virou um dos cenários mais surreais e bonitos de Minas Gerais
A 13 km de Diamantina, 33 casinhas brancas e azuis no meio da Serra do Espinhaço guardam a história de uma fábrica fundada por um bispo em 1876 que chegou a ter 600 operários
Escrito por:
Igor Souza
Publicado em:
06/07/2026
Quando o maquinário embarcou em Massachusetts, nos Estados Unidos, ninguém imaginou o que seria preciso para fazê-lo chegar ao destino. O equipamento cruzou o Atlântico, desembarcou no Rio de Janeiro, seguiu de trem até Juiz de Fora e depois percorreu de carro de boi os últimos quilômetros até uma encosta na Serra do Espinhaço. Era 1876. Ali seria construída uma das primeiras fábricas têxteis de Minas Gerais, fundada pelo bispo Dom João Antônio dos Santos e sua família. Hoje, quase 150 anos depois, o que restou é um dos cenários mais surreais e bonitos do estado: a Vila do Biribiri, a 13 quilômetros de Diamantina.
Como nasceu a Vila do Biribiri?
O nome "Biribiri" vem do tupi-guarani e significa "buraco fundo", referência à posição da vila entre o pé de uma montanha e um rio. A localização foi escolhida justamente por isso: a queda d'água do Rio Biribiri fornecia a energia hidráulica para mover os teares. A usina hidrelétrica construída ali foi uma das pioneiras no estado.
A fábrica inaugurou com 63 operários e 45 teares. Poucos anos depois já operava com 210 funcionários, a maioria mulheres do Vale do Jequitinhonha. No auge, a vila chegou a abrigar 600 empregados e suas famílias, com escola, armazém, barbearia e clube.


Casinha da Vila do Biribiri, em Diamantina, com fachada branca, detalhes azuis e flores vibrantes - Foto: Igor Souza
O que existe na vila hoje?
A fábrica encerrou as atividades em 1973. Com o fim da produção, as famílias foram embora e hoje apenas poucos moradores fixos permanecem no local. O que ficou é um conjunto arquitetônico tombado pelo IEPHA em 1998, composto por:
33 casinhas brancas e azuis: idênticas, enfileiradas, projetadas pelo arquiteto inglês John Rose com influência do movimento Arts and Crafts;
Galpões da antiga fábrica: ainda de pé, com a estrutura original preservada;
Casarão do antigo dormitório feminino: chamado de "convento", onde as operárias dormiam sob regras rígidas;
Chapel do Sagrado Coração de Jesus: construída em estilo rococó, com relógio doado pela Família Real; no entorno está enterrado o senador Joaquim Felício dos Santos, co-fundador da vila.
Carros não são permitidos dentro da vila e música alta também não. O silêncio é a norma, e não é difícil entender por que visitantes descrevem o lugar como uma cidade cenográfica.


Antiga polia da Fábrica de Biribiri exposta na Vila do Biribiri, em Diamantina - Foto: Igor Souza
Quais cachoeiras ficam no Parque Estadual do Biribiri?
A Vila do Biribiri está dentro do Parque Estadual do Biribiri, com quase 17 mil hectares inseridos na Serra do Espinhaço, reconhecida pela Unesco como Reserva da Biosfera em 2005. O parque funciona diariamente das 8h às 17h e a entrada é gratuita. As principais cachoeiras acessíveis de carro são:
Cachoeira da Sentinela: a 7 km da portaria, vários poços com 1 a 5 metros de profundidade; trilha de acesso curta e fácil;
Cachoeira dos Cristais: a 12 km da portaria, duas quedas com poços mais profundos; não recomendada para crianças pequenas;
Poço da Água Limpa e Poço do Estudante: de fácil acesso, próximos à estrada principal.
Além das cachoeiras, o parque tem o Caminho dos Escravos, trilha de 20 quilômetros construída no século XVIII para escoamento da produção de diamantes, e mirantes como o da Cruzinha e o do Guinda, ambos de fácil acesso.
+ Leia também: Turistas trocam o agito das cidades grandes pelo sossego desse destino
O que saber antes de ir ao Biribiri?
A estrada de acesso é de terra, em bom estado para veículos comuns, mas pode piorar após chuvas. O GPS frequentemente indica rotas erradas: a referência correta é seguir pela MG-220 a partir de Diamantina. A entrada na vila cobra R$ 10 por pessoa e há limite de 500 visitantes por vez.
Pontos práticos para o planejamento:
Horário de visitação da vila: segunda a domingo, das 7h às 18h;
Parque Estadual: funciona das 8h às 17h, entrada gratuita;
Restaurantes na vila: Raimundo sem Braço e Restaurante do Adilson, comida mineira no fogão a lenha;
Melhor época: período seco, de maio a setembro.
A Vila do Biribiri está a 13 quilômetros de Diamantina e a cerca de 300 quilômetros de Belo Horizonte. A combinação de vilarejo histórico, cachoeiras de fácil acesso e um parque com quase 17 mil hectares faz do roteiro uma das visitas mais completas da região do Jequitinhonha.
O lugar tem algo de irreal que não depende de filtro. As casinhas são brancas e azuis demais para um cenário industrial abandonado. Os galpões estão de pé onde deveriam estar em ruínas. E o sino da chapel foi fundido nos próprios fornos da fábrica que havia ali. É esse tipo de detalhe que faz o Biribiri ser impossível de esquecer.


Casario da Vila do Biribiri, em Diamantina, com fachada branca, detalhes azuis e gramado amplo - Foto: Igor Souza
Igor Souza
Igor Souza é fotógrafo, engenheiro civil e criador de conteúdo especializado em turismo, com olhar atento para os encantos de Minas Gerais. Une técnica e sensibilidade para retratar paisagens, construções históricas e experiências autênticas pelo interior mineiro. Além da atuação na engenharia, é apaixonado por contar histórias através de imagens e palavras, valorizando a cultura, a fé e a simplicidade de cada lugar.


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