A estação de trem de Cordisburgo virou cenário de um conto de Guimarães Rosa e ainda recebe cargueiros todos os dias
A plataforma onde se passa um conto famoso da literatura brasileira está fechada, mas os cargueiros não param. Conheça a história dessa estação mineira
Escrito por:
Igor Souza
Publicado em:
06/11/2026
“Tomara aquilo se acabasse.” A frase abre um dos contos mais conhecidos de Guimarães Rosa e está numa placa na parede da estação ferroviária de Cordisburgo, a cidade onde o escritor nasceu em 1908. O prédio de 1904 está fechado ao público, mas os trilhos seguem ativos: todos os dias, trens de carga cruzam o lugar onde Rosa viu, ainda menino, os passageiros chegarem e partirem.
Qual conto de Guimarães Rosa se passa na estação?
É “Sorôco, sua mãe, sua filha”, publicado no livro Primeiras estórias. Na história, Sorôco acompanha a mãe e a filha, as duas com problemas mentais, até o trem que vai levá-las para o antigo hospício de Barbacena.
A cena inteira acontece na plataforma, diante de moradores que se juntam para assistir à despedida. Quem conhece a estação de Cordisburgo reconhece o cenário: o mesmo pátio e os mesmos trilhos que, ainda hoje, ficam diante da antiga casa da família Rosa.
O menino Joãozito via o trem da porta de casa
A casa onde Guimarães Rosa nasceu fica do outro lado dos trilhos, bem em frente à estação. No cômodo da frente, o pai, Florduardo, mantinha uma venda, que funcionava como ponto de encontro de quem passava pela cidade.
Foi ali que o futuro escritor aprendeu a observar a fala e os costumes de quem vinha de longe. Segundo os relatos sobre sua infância, o balcão do pai recebia gente como:
viajantes e tropeiros;
mascates;
sertanejos de passagem.
Como a ferrovia chegou a Cordisburgo?
Cordisburgo não estava no traçado original da Estrada de Ferro Central do Brasil. A inclusão da cidade foi resultado da pressão do Padre João de Santo Antônio e de políticos locais junto ao governo federal e à direção da ferrovia, no Rio de Janeiro.
A inauguração teve presença de autoridades de peso, incluindo o presidente Rodrigues Alves e o governador Francisco Salles. Dois marcos registram a chegada dos trilhos:
5 de agosto de 1904: inauguração oficial da estação;
mesma data: início da operação no trecho entre Cordisburgo e Curvelo.
O que passava pela estação em seus tempos de maior movimento?
Por décadas, a ferrovia foi o principal caminho de saída da produção rural da região. Além das cargas, os trens de passageiros paravam na hora do almoço e do jantar, e muitas famílias da cidade tinham alguém trabalhando nos trilhos, de chefe de estação a guarda-chaves.
Os números de 1938, ano da emancipação de Cordisburgo, mostram o peso da estação na economia local. Naquele ano, saíram de lá:
42.894 kg de manteiga;
24.816 kg de creme de leite;
5 mil cabeças de gado;
mil porcos.


Estação ferroviária histórica de Cordisburgo, MG, com trem e trilhos ao lado da plataforma - Foto: Igor Souza


Detalhe da fachada da estação ferroviária de Cordisburgo, MG, com nome e altitude - Foto: Igor Souza
Ainda passam trens por Cordisburgo?
Passam, e todos os dias. A linha que corta a cidade faz parte da Ferrovia Centro-Atlântica, administrada pela VLI, e liga Belo Horizonte ao Norte de Minas e ao Nordeste.
Os trens de passageiros, porém, foram suspensos, e hoje só circulam cargueiros. A cidade mantém uma equipe fixa de ferroviários, e os vagões levam principalmente:
milho;
soja;
outros grãos.
A estação está fechada ao público
Depois da extinção da antiga Rede Ferroviária Federal, o prédio foi desativado e passou a integrar a área operacional da ferrovia. Hoje abriga uma central de fibra óptica e um pequeno depósito.
Em maio de 2026, uma reportagem do jornal Estado de Minas encontrou o imóvel com telhado e vidros quebrados, portas danificadas e mato ao redor. Ao longo dos anos, também se perderam:
o mobiliário original;
o telégrafo;
o livro de ocorrências;
o acervo de fotos históricas.
Por que a estação é um marco do museu?
Uma placa na fachada identifica o prédio como marco territorial do Museu Casa Guimarães Rosa. Esses marcos sinalizam 95 lugares de Minas Gerais que inspiraram a obra do escritor.
A estação é um dos mais simbólicos, porque reúne a infância de Rosa e a ficção. Foi dali que, aos nove anos, ele embarcou com a família rumo a Belo Horizonte, primeiro passo de uma trajetória que passou pela medicina e pela diplomacia.
+ Leia também: Turistas trocam o agito das cidades grandes pelo sossego desse destino
O que mais ver em Cordisburgo?
O roteiro na cidade começa do outro lado dos trilhos. A casa natal do escritor fica a poucos passos da estação e pode ser incluída no mesmo passeio.
Para completar a visita, a cidade oferece outras paradas ligadas à literatura e à história natural:
Museu Casa Guimarães Rosa, criado em 1974, com manuscritos e a máquina de escrever do autor;
Grupo Miguilim, de adolescentes que narram trechos da obra de Rosa;
Semana Rosiana, realizada todo mês de julho;
Gruta de Maquiné, com 650 metros de galerias iluminadas, onde Peter Lund iniciou escavações em 1834.
Igor Souza
Igor Souza é fotógrafo, engenheiro civil e criador de conteúdo especializado em turismo, com olhar atento para os encantos de Minas Gerais. Une técnica e sensibilidade para retratar paisagens, construções históricas e experiências autênticas pelo interior mineiro. Além da atuação na engenharia, é apaixonado por contar histórias através de imagens e palavras, valorizando a cultura, a fé e a simplicidade de cada lugar.


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