A estação de Matozinhos fica no quilômetro 658 da linha-tronco da Central do Brasil, a 743 metros de altitude

Uma estação de trem inaugurada em 1895 ajudou a moldar a economia de uma cidade inteira, perto de Belo Horizonte, e guarda histórias pouco conhecidas

Escrito por:
Leonardo Coelho

Publicado em:
29/09/2029

No quilômetro 658 da antiga linha-tronco da Estrada de Ferro Central do Brasil, a 743 metros de altitude, existe uma estação que ajudou a moldar o destino de toda uma cidade. Matozinhos, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, teve sua história diretamente ligada à chegada dos trilhos em 1895. Entre capelas antigas, indústrias esquecidas e grutas de pinturas rupestres, o município guarda camadas de história que vão muito além dos números que aparecem em qualquer placa de trem.

A estação ferroviária colocou Matozinhos no mapa da Estrada de Ferro Central do Brasil

A Estação Ferroviária de Matozinhos foi inaugurada em 31 de agosto de 1895, remanescente da antiga Estrada de Ferro Central do Brasil. O imóvel marcava, na época, a transição entre o período imperial e o regime republicano recém-instalado no país. Localizada no quilômetro 658 da linha-tronco, entre Peri Peri e Arco Verde, a estação ficava a 743 metros de altitude.

Mais do que um ponto de parada, a estação exerceu papel importante na construção da própria capital mineira, servindo como uma das principais vias de transporte de cargas e passageiros da região. Em 2002, o imóvel foi tombado pela Prefeitura Municipal de Matozinhos, reconhecendo sua relevância histórica. Hoje, a construção segue como símbolo direto da chegada da modernidade ferroviária ao interior de Minas Gerais.

Por que a estação já se chamou Estação da Paz?

Antes de receber o nome que carrega até hoje, a estação foi batizada como Estação da Paz. A escolha, porém, não durou muito tempo diante das reivindicações constantes de moradores e autoridades locais. O nome acabou sendo substituído para refletir diretamente a identidade do município onde a construção estava instalada.

Essa mudança de nome, ainda que pouco conhecida fora do círculo de historiadores locais, mostra como a relação entre comunidade e estação era próxima desde os primeiros anos de funcionamento. O episódio também reforça o papel simbólico que a ferrovia exercia sobre a identidade da região. Dois pontos ajudam a resumir essa transição de nomes:

  • O nome original, Estação da Paz, dado logo após a inauguração;

  • A substituição por Estação de Matozinhos, atendendo às reivindicações locais.

Vista lateral da estação ferroviária de Matozinhos, MG, com fachada azul e branca e trilhos
Vista lateral da estação ferroviária de Matozinhos, MG, com fachada azul e branca e trilhos

Vista lateral da estação ferroviária de Matozinhos, MG, com fachada azul e branca e trilhos - Foto: Igor Souza

Estação ferroviária de Matozinhos, MG, com fachada branca e azul em frente aos trilhos
Estação ferroviária de Matozinhos, MG, com fachada branca e azul em frente aos trilhos

Estação ferroviária de Matozinhos, MG, com fachada branca e azul em frente aos trilhos - Foto: Igor Souza

Como o trem transformou a economia da cidade?

A chegada da ferrovia em 1895 abriu caminho para mudanças econômicas profundas em Matozinhos. Em 1908, a região recebeu a primeira fábrica de tecidos de lã de Minas Gerais, instalada na localidade de Periperi, hoje conhecida como Capim Branco. A produção de casimiras alcançou seu auge nas décadas de 1940 e 1950, sendo exportada para diferentes partes do mundo pela própria estação. Alguns elementos ajudam a entender essa transformação econômica:

  • A instalação da primeira fábrica de tecidos de lã de Minas Gerais, em 1908;

  • A produção de casimiras, exportadas para diferentes partes do mundo;

  • O transporte de feijão e milho, que impulsionou a produção agrícola local;

  • O papel da estação como escoadouro de cargas para outras regiões.

Além dos tecidos, o trem viabilizou o transporte de feijão e milho, tornando Matozinhos uma das maiores produtoras nacionais desses grãos. Essa combinação consolidou a estação como o principal motor econômico da cidade por décadas.

Matozinhos nasceu de uma capela erguida em meio a ruínas de um acampamento

Antes da ferrovia, a origem de Matozinhos remonta a um episódio bem mais antigo. O povoado surgiu ao redor de uma capela erguida no local onde foi encontrada uma imagem do Senhor Bom Jesus, entre ruínas de um antigo acampamento. Essa descoberta transformou a imagem no padroeiro do lugar, título que se mantém até os dias atuais.

A devoção ao Senhor Bom Jesus se mantém viva até hoje, especialmente durante a romaria realizada todos os anos no mês de setembro. Esse vínculo religioso ajudou a moldar a identidade administrativa do lugar ao longo dos séculos seguintes. Alguns marcos ajudam a entender essa trajetória política e territorial:

  • Elevação a freguesia em 23 de agosto de 1823;

  • Vínculo sucessivo a Sabará, Santa Luzia e Pedro Leopoldo até 1943;

  • Emancipação como município em 1º de janeiro de 1944.

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Que outras belezas e tradições compõem a história do município?

Além da estação e da capela original, Matozinhos guarda outras belezas naturais e culturais pouco exploradas fora da região. O território montanhoso do município tem no Pico da Roseira seu ponto mais elevado, com 1.011 metros de altitude. A formação de rocha calcária também deu origem a grutas importantes para a arqueologia e a espeleologia mineira. Alguns desses pontos ajudam a completar esse retrato:

  • O Pico da Roseira, com 1.011 metros de altitude;

  • A Gruta Cerca Grande, com registros de pinturas rupestres;

  • A Gruta do Ballet, também com painéis de arte rupestre;

  • A Gruta das Poções, parte do conjunto espeleológico local;

  • A tradição do Congado, estruturada na comunidade de Mocambeiro em 1917.

A tradição do Congado remete à comunidade de Mocambeiro, onde o ex-escravo Sô Tirino organizou os primeiros festejos inspirados em celebrações do Congo de cidades vizinhas. Esses encontros deram origem, em 1917, a uma capitania própria que segue viva até hoje.

Leonardo Coelho

Leonardo Coelho é um viajante e entusiasta de experiências culturais que revelam a alma do mundo, mantendo sempre vivo o orgulho de suas raízes mineiras. Busca enxergar a física e a química nas nuances da natureza, transformando o movimento da vida em descobertas. Apaixonado pela estrada, encontra seu propósito ao transmitir cada detalhe, sabor e fenômeno que presencia, conectando pessoas através da arte de explorar e sentir o real.

Foto do autor Leonardo Coelho sorrindo, com terno e parede branca ao fundo
Foto do autor Leonardo Coelho sorrindo, com terno e parede branca ao fundo

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