A 930 metros de altitude, uma vila de cem casas fica deserta quase o ano todo: a Serra do Carola, no Serro

No alto de uma serra íngreme em Minas Gerais, cerca de cem casas ficam vazias o ano todo, só ganhando vida por poucos dias, em julho

Escrito por:
Leonardo Coelho

Publicado em:
16/09/2026

A 930 metros de altitude, no alto de uma serra íngreme perto do Serro, existe uma vila que passa quase o ano inteiro sem moradores. São cerca de cem casas construídas ao redor de uma capela dedicada a Nossa Senhora das Dores. Hoje conhecida como a vila fantasma da Serra do Carola, essa localidade só ganha vida durante alguns dias do ano, quando peregrinos retornam para celebrar a fé que deu origem a tudo.

No topo da Serra do Carola, cerca de cem casas ficam desabitadas quase o ano inteiro

A Serra do Carola, também conhecida como Caroula ou montanha dos bem-aventurados, fica a cerca de 18 quilômetros do centro do Serro, cidade colonial fundada por bandeirantes em 1714. No topo dessa elevação, cerca de cem casinhas cercam a Capela de Nossa Senhora das Dores, formando um conjunto que hoje é reconhecido como patrimônio municipal. Essas construções permanecem fechadas durante praticamente todo o ano.

A localidade pertence à zona rural do Distrito Deputado Augusto Clementino, antiga Vila de Mato Grosso, que também integra o município do Serro. Enquanto o núcleo próximo à Capela de São Sebastião mantém moradores fixos e pequeno comércio, o alto da serra segue praticamente vazio na maior parte do calendário, o que rendeu à Serra do Carola o apelido de vila fantasma.

Igreja histórica com portas azuis e casas antigas na Serra do Carola, MG, cercadas pela paisagem
Igreja histórica com portas azuis e casas antigas na Serra do Carola, MG, cercadas pela paisagem

Igreja histórica com portas azuis e casas antigas na Serra do Carola, MG, cercadas pela paisagem rural - Foto: Igor Souza

Como surgiu a devoção que deu origem a essa vila fantasma?

A história da Serra do Carola remonta ao início do século XX, quando fiéis passaram a enfrentar uma subida íngreme de cerca de três quilômetros para pedir proteção e graças a Nossa Senhora das Dores. À medida que os pedidos eram atendidos, o número de peregrinos foi aumentando, atraindo até forasteiros de outras regiões do país.

Diante desse crescimento, um dos devotos, José Osvaldo de Gulim, ergueu um cruzeiro de madeira no platô mais alto da serra, marcando oficialmente o local de devoção. Pouco depois, ele e mais três companheiros construíram a primeira capela numa área doada por um morador da região. Dois nomes ajudam a resumir essa fase inicial de construção do santuário:

  • José Osvaldo de Gulim, responsável pelo cruzeiro de madeira inicial;

  • Romão Eduardo dos Santos, que doou a área para a construção da capela.

Por que as casas só se enchem durante o mês de julho?

Ao longo do ano, a vila no topo da Serra do Carola permanece praticamente vazia, com portas e janelas trancadas na maior parte das casas. A exceção é a moradia de dona Maria, moradora que vive no local durante todo o ano e cuida de algumas cabeças de gado. Essa rotina muda completamente durante o jubileu de Nossa Senhora das Dores, realizado em julho. Alguns elementos ajudam a entender essa transformação temporária:

  • Chegada de moradores dos povoados vizinhos para o período do jubileu;

  • Hospedagem temporária nas casinhas durante cerca de uma semana;

  • Abertura das portas e janelas que ficam fechadas o resto do ano;

  • Retorno da vila ao estado desabitado logo após o fim das celebrações.

Durante esses poucos dias, a vila se enche de movimento, com fiéis subindo a serra para cumprir promessas. Passado o jubileu, o silêncio volta a dominar o topo da montanha, e as casinhas retomam sua condição de vila fantasma.

Casas antigas de fachadas brancas e detalhes azuis na Serra do Carola, MG, em meio às montanhas
Casas antigas de fachadas brancas e detalhes azuis na Serra do Carola, MG, em meio às montanhas

Casas antigas de fachadas brancas e detalhes azuis na Serra do Carola, MG, em meio às montanhas - Foto: Igor Souza

O que caracteriza a arquitetura dessas casas abandonadas?

As casinhas que formam a vila fantasma da Serra do Carola seguem um padrão simples, uma curiosidade arquitetônica comum a pequenos povoados do interior mineiro. As paredes aparecem em diferentes cores, muitas vezes sem reboco, enquanto telhas de barro dividem espaço com coberturas de amianto em diferentes construções. Fogões a lenha ficam do lado de fora, mantendo um traço característico da vida rural da região.

Entre as edículas, becos de chão batido ou cobertos por gramíneas ligam uma construção à outra, reforçando o clima de vila abandonada quando não há festividades acontecendo. Muitas casas ainda trazem enfeites em homenagem à santa, reforçando o caráter religioso de toda a construção. Alguns elementos ajudam a resumir essa arquitetura simples e funcional:

  • Paredes coloridas, muitas sem reboco;

  • Telhas de barro e coberturas de amianto, dependendo da construção;

  • Fogões a lenha instalados na área externa das casas.

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Como chegar até essa vila no alto da serra?

Para chegar à Serra do Carola, o caminho mais comum começa na cidade do Serro, seguindo pela rodovia MG-010 em direção a Conceição do Mato Dentro. O trajeto passa primeiro pelo Distrito Deputado Augusto Clementino, também conhecido como Vila de Mato Grosso, antes de seguir para a subida final até o topo da serra. Alguns pontos ajudam a organizar esse trajeto para quem pretende visitar o local:

  • Saída da cidade do Serro pela rodovia MG-010;

  • Chegada ao Distrito Deputado Augusto Clementino, antiga Vila de Mato Grosso;

  • Últimos três quilômetros em subida íngreme, em terra batida;

  • Vista panorâmica da região, incluindo cachoeiras, ao longo do percurso;

  • Passeios guiados oferecidos por empresas de turismo da região.

A inclinação acentuada do terreno costuma surpreender quem não está preparado, mesmo em veículos adequados para estradas de terra. Recomenda-se atenção redobrada em dias de chuva, quando o acesso pode ficar ainda mais difícil.

Cruzeiro de madeira na Serra do Carola, MG, com vista panorâmica das montanhas e vales da região
Cruzeiro de madeira na Serra do Carola, MG, com vista panorâmica das montanhas e vales da região

Cruzeiro de madeira na Serra do Carola, MG, com vista panorâmica das montanhas e vales da região - Foto: Igor Souza

Leonardo Coelho

Leonardo Coelho é um viajante e entusiasta de experiências culturais que revelam a alma do mundo, mantendo sempre vivo o orgulho de suas raízes mineiras. Busca enxergar a física e a química nas nuances da natureza, transformando o movimento da vida em descobertas. Apaixonado pela estrada, encontra seu propósito ao transmitir cada detalhe, sabor e fenômeno que presencia, conectando pessoas através da arte de explorar e sentir o real.

Foto do autor Leonardo Coelho sorrindo, com terno e parede branca ao fundo
Foto do autor Leonardo Coelho sorrindo, com terno e parede branca ao fundo

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