A 90 km de Belo Horizonte, o distrito de Cocais guarda igrejas barrocas de mais de 250 anos

Um vilarejo de ruas de paralelepípedo guarda uma capela erguida por dois irmãos bandeirantes, um museu caseiro e pinturas rupestres de sete mil anos

Escrito por:
Igor Souza

Publicado em:
05/08/2026

Em 1703, dois irmãos portugueses pararam em um vale cercado de montanhas e ergueram ali uma capela — gesto simples que deu origem a um dos povoados mais preservados do Circuito do Ouro. Mais de três séculos depois, o distrito de Cocais, parte do município de Barão de Cocais, ainda guarda igrejas que atravessaram gerações inteiras sem perder o traçado colonial. A 90 km de Belo Horizonte, o lugar reúne barroco, arqueologia e histórias de família em poucas quadras.

Cocais nasceu de uma capela erguida por dois irmãos bandeirantes

A vila tem fundação datada em 26 de julho de 1703, por iniciativa dos irmãos portugueses e bandeirantes Antônio e João Furtado Leite. Os dois se instalaram no local e construíram uma capela simples, gesto que deu origem ao povoado que mais tarde se tornaria distrito de Barão de Cocais. O nome do distrito remete aos coqueiros que, segundo moradores mais antigos, se destacavam na paisagem verde da região à época da fundação.

Pouco mais de 60 anos depois da fundação, o distrito ganhou sua primeira igreja de fato, erguida em pedra e cal — um sinal de que a região já vivia um período de maior prosperidade, puxado pela mineração de ouro que também moldou boa parte do entorno.

Igreja histórica com detalhes azuis e duas torres no distrito de Cocais, em Barão de Cocais, MG
Igreja histórica com detalhes azuis e duas torres no distrito de Cocais, em Barão de Cocais, MG

Igreja histórica com detalhes azuis e duas torres no distrito de Cocais, em Barão de Cocais, MG - Foto: Igor Souza

Por que a Igreja de Sant'Ana é considerada a mais antiga do distrito?

Erguida em 1769 no Largo de Sant'Ana, a igreja começou como capela particular da família Furtado Leite, fundadora do distrito, e depois passou às mãos da família Pinto Coelho, da qual descende o próprio Barão de Cocais, sepultado no interior do templo. Diferente da capela original de taipa, a nova construção já usava pedra e cal, técnica mais durável que passou a ser adotada conforme a mineração trazia mais recursos para a região.

O interior guarda alguns dos detalhes mais valiosos do acervo religioso do distrito:

  • talha dourada nos três altares principais;

  • influência de artesãos com traços orientais, comum em obras do século 19;

  • imagem de Sant'Ana de 1,5 metro, trazida diretamente de Portugal.

E a Igreja do Rosário, qual sua história?

Inaugurada em 1855 no Largo do Rosário, a Matriz de Nossa Senhora do Rosário nasceu de uma necessidade específica: dar aos negros cativos e libertos da região um lugar para participar das cerimônias católicas, já que eles eram proibidos de frequentar a Igreja de Sant'Ana.

A construção ficou a cargo do alferes Antônio da Silva Sampaio e, diferente da vizinha mais antiga, foi erguida em madeira e taipa, com altares de dourados mais simples. Hoje, a igreja continua no centro da Praça do Rosário, ponto de encontro do distrito. A praça também reúne um coreto tradicional e um cruzeiro de pedra, cenário comum às pequenas cidades do interior de Minas.

Vista lateral da Igreja de Sant’Ana com torre e palmeiras no distrito de Cocais, em Barão de Cocais,
Vista lateral da Igreja de Sant’Ana com torre e palmeiras no distrito de Cocais, em Barão de Cocais,

Vista lateral da Igreja de Sant’Ana com torre e palmeiras no distrito de Cocais, em Barão de Cocais, MG - Foto: Igor Souza

O distrito guarda também um sítio arqueológico com pinturas rupestres

A poucos minutos do centro fica o Sítio Arqueológico Pedra Pintada, parte da cadeia montanhosa da Serra do Espinhaço. O local reúne registros da presença humana na região central de Minas Gerais estimados em cerca de sete mil anos, distribuídos por três paredões de rocha. A formação rochosa integra uma área reconhecida internacionalmente por sua relevância ambiental e cultural, o que reforça o cuidado exigido na visitação.

A visita é feita com guia, por uma trilha que leva até os painéis com cerca de 122 pinturas rupestres, além de vistas para as serras do entorno. O sítio é hoje um dos principais objetos de estudo de pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais.

+ Leia também: Turistas trocam o agito das cidades grandes pelo sossego desse destino

O que mais vale a pena conhecer em Cocais?

Além das igrejas e do sítio arqueológico, o distrito guarda espaços que ajudam a entender o dia a dia de quem viveu ali ao longo dos séculos. O Museu Histórico Fernando Toco, criado por um morador local, reúne peças ligadas ao tropeirismo e à vida cotidiana das antigas fazendas da região. Seu idealizador, falecido em 2006, batizou o espaço em homenagem ao próprio bisavô, reunindo décadas de objetos guardados por gerações da mesma família.

Outros programas completam a visita ao distrito, especialmente para quem tem um dia inteiro disponível:

  • cachoeiras a cerca de 5 km do centro, com trilha até a primeira queda d'água;

  • Praça do Rosário, palco da tradicional Festa da Quitanda e do Festival da Goiabada;

  • passeio de trem até a Estação Dois Irmãos, em Barão de Cocais, com acesso final de táxi.

Fachada da Igreja de Nossa Senhora do Rosário com detalhes azuis e torres sineiras em Cocais, MG
Fachada da Igreja de Nossa Senhora do Rosário com detalhes azuis e torres sineiras em Cocais, MG

Fachada da Igreja de Nossa Senhora do Rosário com detalhes azuis e torres sineiras em Cocais, MG - Foto: Igor Souza

Igor Souza

Igor Souza é fotógrafo, engenheiro civil e criador de conteúdo especializado em turismo, com olhar atento para os encantos de Minas Gerais. Une técnica e sensibilidade para retratar paisagens, construções históricas e experiências autênticas pelo interior mineiro. Além da atuação na engenharia, é apaixonado por contar histórias através de imagens e palavras, valorizando a cultura, a fé e a simplicidade de cada lugar.

Foto do autor da matéria Igor Souza, sorrindo, com os braços cruzados, blusa polo azul escuro e pare
Foto do autor da matéria Igor Souza, sorrindo, com os braços cruzados, blusa polo azul escuro e pare

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