A 154 km de Belo Horizonte, Ressaquinha esconde uma história de bandeirantes, tropeiros e trem a vapor

Uma capela de 1675, um pouso de mulas numa encruzilhada e uma estação onde locomotivas paravam para beber água: a cidade de serra no Campo das Vertentes

Escrito por:
Igor Souza

Publicado em:
23/10/2026

Uma pequena capela erguida por bandeirantes, um pouso onde tropeiros descansavam os animais e uma estação onde as locomotivas paravam para beber água. Ressaquinha, no Campo das Vertentes, tem pouco mais de 4,5 mil moradores e passa despercebida por quem segue pela estrada. Mas cada fase da ocupação de Minas deixou um rastro nesse pedaço de serra perto de Barbacena.

Por onde passaram os bandeirantes em Ressaquinha?

A bandeira de Fernão Dias Paes deixou São Paulo em 21 de julho de 1674 e atravessou Minas Gerais de sul a norte em busca de esmeraldas. Em março de 1675, a expedição chegou à região de Ressaca, onde ergueu uma pequena ermida, como eram chamadas as capelas simples da época.

Depois da passagem da bandeira, chegaram as primeiras famílias, que abriram fazendas e fixaram a ocupação do território. Entre os sobrenomes ligados a esse início, aparecem os seguintes:

  • Barbosa e Carvalho;

  • Oliveira Belo;

  • Xavier;

  • Ferreira Lage;

  • Ferreira Armond.

De onde vem o nome Ressaquinha?

O primeiro nome do lugar foi Encruzilhada do Campo. A denominação Ressaquinha já aparece em registros de 1734 da Freguesia da Borda do Campo e está ligada à fazenda de mesmo nome, aberta a cerca de 6 km de Ressaca, às margens do rio que tem nascente ali. A origem da palavra, porém, divide os estudiosos, que defendem duas explicações:

  • Uma pequena ressaca, como se chamava o encontro de dois cursos d’água;

  • A expressão latina “res sacra”, que significa coisa sagrada, possível referência à primeira cerimônia religiosa da região.

Seja qual for a origem, a religião esteve presente desde cedo. Proprietários da região doaram uma gleba de terras para a construção de uma capela, e foi em volta dela que o povoado cresceu até ganhar, em 1925, a Paróquia de São José.

Os tropeiros fizeram da Encruzilhada do Campo um ponto de parada

Antes de virar cidade, Ressaquinha foi um pouso de tropeiros. As tropas de mulas levavam mercadorias, alimentos e notícias entre as vilas, e precisavam de lugares seguros para descansar, dar água aos animais e passar a noite antes de seguir viagem.

O nome Encruzilhada do Campo descrevia bem essa função. O povoado ficava no cruzamento de rotas importantes para o comércio da época, ligando a região a três direções:

  • O oeste de Minas Gerais;

  • São Paulo;

  • O sul, pelo Caminho Novo da Estrada Real.

Construção histórica de Ressaquinha, MG, com fachada amarela, telhado colonial e área verde ao redor
Construção histórica de Ressaquinha, MG, com fachada amarela, telhado colonial e área verde ao redor

Construção histórica de Ressaquinha, MG, com fachada amarela, telhado colonial e área verde ao redor - Foto: Igor Souza

Igreja São José, em Ressaquinha, MG, com fachada branca e amarela entre palmeiras sob céu azul
Igreja São José, em Ressaquinha, MG, com fachada branca e amarela entre palmeiras sob céu azul

Igreja São José, em Ressaquinha, MG, com fachada branca e amarela entre palmeiras sob céu azul - Foto: Igor Souza

Como o trem a vapor chegou a Ressaquinha?

Os trilhos da Estrada de Ferro Dom Pedro II chegaram em 1882, pela Linha do Centro, a primeira construída pela companhia. A estação ficava a 1.120 metros de altitude, num trecho de subida da serra entre Santos Dumont e Conselheiro Lafaiete. A trajetória da ferrovia passou por várias fases:

  • 1882: inauguração da estação, em 12 de abril;

  • 1889: a ferrovia passa a se chamar Estrada de Ferro Central do Brasil;

  • 1950: abertura de uma variante entre Barbacena e Carandaí, por Simão Tamm;

  • Até 1965: passageiros ainda podiam escolher entre a linha velha e a nova;

  • 1966: últimos registros de parada de trens de passageiros;

  • Segunda metade dos anos 1960: retirada dos trilhos do traçado antigo.

Na época do vapor, a estação servia para reabastecer as locomotivas de água, já que uma máquina com a caldeira acesa não podia ficar sem ela. O prédio e a casa do agente foram restaurados e continuam de pé, mesmo sem os trilhos que deram origem a essa fase da história.

O Quilombo Santo Antônio do Morro Grande guarda outra parte da história

A cerca de 11,5 km da sede, por estrada de terra, fica uma comunidade quilombola formada no século 19 por pessoas escravizadas que fugiram de fazendas de café da região. Ela foi reconhecida pela Fundação Cultural Palmares em 2007 e registrada pelo município como lugar de importância cultural em 2014.

Os moradores mantêm a festa de Santo Antônio, celebrada em 13 de junho, e a tradição da benzeção, praticada por mulheres da comunidade. Muitas famílias vivem do cultivo de morango, de hortas e da criação de animais, e algumas artesãs trabalham com palha e crochê.

+ Leia também: O cenário que você precisa visitar pelo menos uma vez na vida

Como é Ressaquinha nos dias de hoje?

A emancipação veio em 1953, quando Ressaquinha se separou de Barbacena, e o município foi instalado em 1º de janeiro de 1954. Hoje, além da sede, tem os distritos de Canjamba, Vargem do Amargoso e Simão Tamm, este último no caminho da variante ferroviária que tirou o trem do centro.

A cidade fica a 154 km de Belo Horizonte e combina bem com um roteiro pela região de Barbacena. A visita costuma incluir a antiga estação, a Igreja Matriz de São José, as capelas e as casas antigas do centro, além da comida mineira servida nos restaurantes locais.

Igor Souza

Igor Souza é fotógrafo, engenheiro civil e criador de conteúdo especializado em turismo, com olhar atento para os encantos de Minas Gerais. Une técnica e sensibilidade para retratar paisagens, construções históricas e experiências autênticas pelo interior mineiro. Além da atuação na engenharia, é apaixonado por contar histórias através de imagens e palavras, valorizando a cultura, a fé e a simplicidade de cada lugar.

Foto do autor da matéria Igor Souza, sorrindo, com os braços cruzados, blusa polo azul escuro e pare
Foto do autor da matéria Igor Souza, sorrindo, com os braços cruzados, blusa polo azul escuro e pare

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