A 1.434 metros de altitude, a Pedra Grande domina a paisagem entre Igarapé, Mateus Leme e Itatiaiuçu

No limite entre quatro cidades da Grande BH, um paredão de mais de mil metros virou palco de disputa entre comunidades locais e uma mineradora

Escrito por:
Igor Souza

Publicado em:
14/08/2026

Formação rochosa da Pedra Grande cercada por vegetação seca em Igarapé, MG
Formação rochosa da Pedra Grande cercada por vegetação seca em Igarapé, MG

Formação rochosa da Pedra Grande cercada por vegetação seca em Igarapé, MG - Foto: Igor Souza

Poucos pontos turísticos de Minas Gerais têm nome oficial de patrimônio em duas prefeituras ao mesmo tempo. A Pedra Grande, um afloramento rochoso que ultrapassa os 1.400 metros de altitude, foi tombada tanto por Igarapé quanto por Itatiaiuçu — e é avistada também dos municípios vizinhos de Mateus Leme e Brumadinho. A cerca de 60 km de Belo Horizonte, o maciço rochoso pode ser visto a longa distância e atrai tanto caminhantes quanto praticantes de esportes de aventura, mas também virou motivo de mobilização das comunidades que vivem ao seu redor.

Por que a Pedra Grande é tão importante para a região?

O afloramento fica exatamente a 1.434 metros de altitude, na junção dos limites municipais de Igarapé, Itatiaiuçu, Brumadinho e Mateus Leme, todos na Região Metropolitana de Belo Horizonte. Do alto, a vista alcança 360 graus e mostra cidades vizinhas, além de parte da Represa de Serra Azul.

A importância vai além da paisagem. A Pedra Grande é berço de nascentes que recarregam um dos aquíferos responsáveis por abastecer a região metropolitana, e a área está inserida no Quadrilátero Ferrífero, província geológica conhecida por depósitos de ferro, manganês, ouro, calcário e bauxita. Esse tipo de formação atrai historicamente a atenção de mineradoras, o que tornou a região alvo de disputas recentes sobre uso do solo.

A região já foi habitada por povos indígenas antes da chegada dos bandeirantes

No século 17, a área hoje ocupada por Igarapé era habitada por povos indígenas do tronco linguístico macro-jê, praticamente exterminados pela ação dos bandeirantes vindos de São Paulo. O nome da vizinha Itatiaiuçu, aliás, remete diretamente à própria Pedra Grande: em tupi-guarani, a expressão está associada à ideia de pedra grande. O antigo povoado, batizado de Barreiro, só recebeu o nome Igarapé em 1938.

Séculos depois, a ocupação da região seguiu por caminhos bem diferentes daqueles da mineração do período colonial:

  • garimpo de ouro no distrito de São Joaquim de Bicas, ainda no século 19;

  • expansão da agropecuária, que sustentou famílias da região por gerações;

  • elevação de povoados como Igarapé e Itatiaiuçu à condição de município, já no século 20.

Como é feita a trilha até o topo?

O acesso mais conhecido começa na BR-381 Sul, na Curva da Ferradura, quilômetro 517, no município de Igarapé. Dali, a trilha soma cerca de 12 km entre ida e volta, com trechos íngremes que exigem preparo físico moderado e atenção redobrada. Não há infraestrutura de apoio ao longo do caminho, o que reforça a necessidade de levar água e equipamento adequado.

Quem completa o percurso é recompensado por uma vista panorâmica que alcança cidades vizinhas e boa parte da Região Metropolitana de Belo Horizonte. Além da caminhada, o local também recebe praticantes de rapel, ciclismo de montanha e voo livre, atraídos pelo relevo acidentado e pelos paredões de rocha.

A comunidade local resiste à instalação de uma mineradora nas proximidades

Em janeiro de 2023, a mineradora Usiminas obteve licença ambiental para instalar um empreendimento a cerca de 500 metros da Pedra Grande, em Itatiaiuçu. Moradores da comunidade de Vieiras, no mesmo município, passaram a se mobilizar contra a atividade, temendo impactos irreversíveis sobre nascentes, cavernas, fauna e flora da região. Em junho, o acesso da comunidade ao local chegou a ser fechado pela mineradora e só foi reaberto por decisão judicial.

Entre as preocupações levantadas por moradores e associações locais estão:

  • possível comprometimento das nascentes que abastecem o Rio Manso;

  • interrupção de um corredor ecológico usado por animais silvestres;

  • restrição do acesso da comunidade à Pedra Grande, hoje usado também para o empreendimento;

  • riscos de poeira, tráfego intenso de caminhões e rachaduras em casas próximas.

+ Leia também: O cenário que você precisa visitar pelo menos uma vez na vida

O que já foi feito para proteger a Pedra Grande?

O conjunto natural e paisagístico da Pedra Grande já é tombado pelas prefeituras de Igarapé, desde 2008, e de Itatiaiuçu, que reconheceram juntas cerca de 62,5 hectares de área protegida. Diante da ameaça recente de mineração, a prefeitura de Itatiaiuçu também pediu o tombamento estadual do monumento.

Uma deputada estadual chegou a apresentar projeto de lei para reforçar a proteção do local, além de acionar o órgão estadual de patrimônio histórico. Um ato público em defesa da Pedra Grande já reuniu moradores, vereadores dos dois municípios e representantes do Ministério Público, e moradores e associações ambientais defendem hoje a criação de um parque como forma definitiva de garantir a preservação da área para as próximas gerações.

Igor Souza

Igor Souza é fotógrafo, engenheiro civil e criador de conteúdo especializado em turismo, com olhar atento para os encantos de Minas Gerais. Une técnica e sensibilidade para retratar paisagens, construções históricas e experiências autênticas pelo interior mineiro. Além da atuação na engenharia, é apaixonado por contar histórias através de imagens e palavras, valorizando a cultura, a fé e a simplicidade de cada lugar.

Foto do autor da matéria Igor Souza, sorrindo, com os braços cruzados, blusa polo azul escuro e pare
Foto do autor da matéria Igor Souza, sorrindo, com os braços cruzados, blusa polo azul escuro e pare

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