A 120 km de BH, Catas Altas guarda um centro histórico tombado do tempo do ouro

O nome veio de uma frase de garimpeiros, e o casario, a matriz com obra atribuída a Aleijadinho e um aqueduto de 1792 seguem de pé desde o auge do ouro

Escrito por:
Igor Souza

Publicado em:
01/11/2026

Garimpeiros diziam que as catas estavam altas, referindo-se ao ouro encontrado nas partes mais elevadas da serra. Foi dessa expressão simples, repetida ao longo do século XVIII, que nasceu o nome de uma cidade inteira a 120 quilômetros de Belo Horizonte. Catas Altas, aos pés da Serra do Caraça, guarda hoje um centro histórico tombado pelo estado, testemunha direta do período em que o ouro definia o destino de Minas Gerais. Passados mais de três séculos, essa história ainda molda as ruas e praças do lugar.

De onde vem o nome dessa cidade cercada por serra?

O povoado surgiu no início do século XVIII, quando o ouro foi encontrado na encosta da Serra do Caraça, e a formação do arraial é atribuída ao bandeirante Domingos Borges, por volta de 1703. A extração naquele período era feita por meio de catas, termo usado para as escavações abertas diretamente no solo. Como as áreas mais ricas ficavam justamente no alto, os próprios garimpeiros passaram a dizer que ali “as catas estavam altas”.

Outro nome da região também nasceu da observação de quem passava por ali. O naturalista francês Auguste de Saint-Hilaire, que esteve na serra em 1816, descreveu fontes termais que acabaram destruídas pelas escavações em busca de ouro e que deram nome ao distrito de Morro d’Água Quente. Já a expressão dos garimpeiros foi ganhando forma oficial em algumas etapas:

  • 1703: formação do arraial por Domingos Borges;

  • 1718: criação da Freguesia de Nossa Senhora da Conceição das Catas Altas;

  • 1724: o lugar passa a ser chamado de Catas Altas do Mato Dentro;

  • 1995: emancipação de Santa Bárbara e criação do município.

O centro histórico é protegido por lei desde 1989

O tombamento aconteceu em 21 de abril de 1989, por meio do Decreto Estadual nº 29.399, e colocou o conjunto sob a proteção do Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais. A proteção abrange o centro histórico como um todo, com o casario, a Matriz e as capelas, e não apenas construções isoladas. Dez anos depois, em 1999, o próprio município também tombou o seu núcleo histórico.

O conjunto protegido inclui:

  • A Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição;

  • O casario colonial ao redor da Praça Monsenhor Mendes;

  • As praças e ruas do traçado que deu origem ao povoado;

  • Capelas como as de Nossa Senhora do Rosário, Santa Quitéria e do Bonfim.

Casarão colonial com portas azuis e jipe antigo no centro histórico de Catas Altas, MG
Casarão colonial com portas azuis e jipe antigo no centro histórico de Catas Altas, MG

Casarão colonial com portas azuis e jipe antigo no centro histórico de Catas Altas, MG - Foto: Igor Souza

Casarões coloniais no centro histórico de Catas Altas, MG, com a Serra do Caraça ao fundo
Casarões coloniais no centro histórico de Catas Altas, MG, com a Serra do Caraça ao fundo

Casarões coloniais no centro histórico de Catas Altas, MG, com a Serra do Caraça ao fundo - Foto: Igor Souza

O que a Matriz de Nossa Senhora da Conceição guarda por dentro?

A Matriz começou a ser erguida em 1729, no lugar de uma capela mais antiga, e as obras se estenderam até 1780 sem que a igreja chegasse a ser concluída por completo. Ainda assim, o templo reúne um dos acervos de arte sacra mais importantes da região, com peças que ajudam a entender o melhor do barroco mineiro:

  • O Cristo crucificado atribuído a Aleijadinho;

  • As pinturas dos quatro Doutores da Igreja atribuídas a Mestre Ataíde;

  • O registro de 1739 da transferência do Santíssimo para a nova matriz;

  • O tombamento pelo Iphan, que veio ainda em 1939.

Décadas depois do tombamento federal, a igreja também entrou na proteção estadual de 1989, descrita como um exemplar exímio da segunda fase do barroco. É a partir do seu adro que o povoado se organizou, e até hoje a Matriz domina a paisagem do centro histórico, com a Serra do Caraça ao fundo.

O que resta do aqueduto construído há mais de 200 anos?

O Aqueduto Bicame de Pedra foi erguido em 1792, com mão de obra escravizada, para captar água da Serra do Caraça e conduzi-la até a região baixa de Brumado, onde o ouro extraído era lavado. A estrutura, feita em pedras de quartzito, chega a 5,10 metros na parte mais alta, e hoje restam cerca de 200 metros da construção original. As pedras foram encaixadas sem cimento nem argamassa, numa técnica inspirada nas construções romanas, em que as pedras do arco central travam umas às outras.

O Bicame fica no povoado de Quebra Ossos, a cerca de 12 quilômetros do centro, e foi escolhido como uma das 21 maravilhas da Estrada Real. Tombado pelo município em 1998, ele tem uma escadaria encaixada na lateral do arco que leva à parte de cima da muralha, de onde dá para entender a dimensão da obra feita há mais de dois séculos.

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Por que o Santuário do Caraça é parada obrigatória por ali?

O Santuário do Caraça ocupa uma área de mais de 11 mil hectares entre Catas Altas e Santa Bárbara, quase toda reconhecida como Reserva Particular do Patrimônio Natural desde 1994. Fundado por volta de 1774, o complexo funciona hoje como um dos principais destinos de turismo religioso e ecológico dessa parte de Minas Gerais. O espaço foi escolhido como uma das sete maravilhas da Estrada Real e reúne, dentro de um mesmo complexo:

  • Pousada com 57 quartos e apartamentos;

  • Restaurante de comida mineira e trilhas dentro da reserva;

  • Áreas de transição entre Cerrado e Mata Atlântica, a cerca de 1.300 metros de altitude, com picos acima de 2 mil metros.

O Pico de Catas Altas, com 1.810 metros de altitude, também integra o roteiro para quem busca contato mais direto com a serra. O conjunto do Caraça, onde por cerca de um século funcionou um colégio interno que teve Afonso Pena e Artur Bernardes entre os alunos, é tombado pelo Iphan desde 1955.

Igor Souza

Igor Souza é fotógrafo, engenheiro civil e criador de conteúdo especializado em turismo, com olhar atento para os encantos de Minas Gerais. Une técnica e sensibilidade para retratar paisagens, construções históricas e experiências autênticas pelo interior mineiro. Além da atuação na engenharia, é apaixonado por contar histórias através de imagens e palavras, valorizando a cultura, a fé e a simplicidade de cada lugar.

Foto do autor da matéria Igor Souza, sorrindo, com os braços cruzados, blusa polo azul escuro e pare
Foto do autor da matéria Igor Souza, sorrindo, com os braços cruzados, blusa polo azul escuro e pare

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