A 100 km de BH fica este distrito cercado de montanhas onde a paz é a principal atração

Um vilarejo colonial guarda pinturas com seis mil anos e uma igreja com talha dourada, mas pouca gente conhece o caminho até lá

Escrito por:
Igor Souza

Publicado em:
13/07/2026

Há um lugar em Minas onde as pinturas nas pedras são mais antigas que qualquer construção colonial do estado. Cocais, distrito de Barão de Cocais, carrega essa combinação rara: arte rupestre milenar dividindo espaço com igrejas barrocas e casarões do século 18, tudo cercado por serras que isolam o vilarejo do barulho das cidades maiores da região.

Por que Cocais é considerado uma relíquia da Estrada Real?

A fundação do povoado remonta a 1703, quando os irmãos portugueses Antônio e João Furtado Leite se instalaram no local e construíram uma capela. Esse registro coloca Cocais entre os povoamentos mais antigos do Caminho dos Diamantes, trecho histórico que conecta cidades mineiras ligadas à mineração colonial.

A vila integra hoje o roteiro Entre Serras, que liga Barão de Cocais a Caeté, Santa Bárbara e Catas Altas. Rodeada de montanhas, a região atrai quem busca tranquilidade e contato direto com a natureza, sem abrir mão da carga histórica que still marca cada esquina do vilarejo.

O sítio arqueológico tem pinturas de seis mil anos

O Sítio Arqueológico da Pedra Pintada é a atração que coloca Cocais em outro patamar. Os vestígios indígenas encontrados no local têm desenhos semelhantes aos das famosas grutas de Altamira, na Espanha, e Lascaux, na França, comparação que dá ideia da relevância científica do achado.

Antes mesmo de qualquer povoamento português na região, a área já era habitada por indígenas há milhares de anos. Visitar o sítio é caminhar por um espaço que documenta a presença humana na região muito antes da chegada dos bandeirantes em busca de ouro.

Cachoeira do Leão em Cocais com queda d’água sobre pedras, poço natural e mata ao redor
Cachoeira do Leão em Cocais com queda d’água sobre pedras, poço natural e mata ao redor

Cachoeira do Leão em Cocais com queda d’água sobre pedras, poço natural e mata ao redor - Foto: Igor Souza

Quais igrejas merecem uma parada em Cocais?

A Igreja de Sant'Anna, erguida no século 18, foi capela particular das famílias Furtado Leite e Pinto Coelho, sendo que o próprio Barão de Cocais está sepultado em seu interior. O destaque fica por conta da talha dourada dos três altares e da imagem de Sant'Anna, trazida de Portugal e com um metro e meio de altura.

A Igreja Matriz de Nossa Senhora do Rosário também compõe o roteiro religioso do distrito. Construída por iniciativa de uma irmandade de negros forros e senhores mestiços, a igreja passou por reformas em 1921 e hoje é tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.

Igreja de Santana em Cocais com telhado colonial, paredes brancas e céu nublado
Igreja de Santana em Cocais com telhado colonial, paredes brancas e céu nublado

Igreja de Santana em Cocais com telhado colonial, paredes brancas e céu nublado - Foto: Igor Souza

A região tem cachoeiras para todos os perfis

Quem busca contato com água encontra opções variadas ao redor do distrito. A Cachoeira da Cambota, por exemplo, forma duchas naturais e piscinas com temperatura em torno de 20 graus, cercada por orquídeas e samambaias que tornam o ambiente ainda mais vivo.

Para organizar o roteiro de banho, vale considerar as principais opções da região:

  • Cachoeira de Cocais, com mais de 30 metros de altura e várias quedas d'água;

  • Cachoeira da Cambota, no córrego São Miguel, com duchas e piscinas naturais;

  • Cachoeira do Leão, encontrada durante caminhadas pela trilha local.

Como chegar até o distrito de Cocais?

O acesso mais comum acontece pela rodovia BR-381, que liga a região metropolitana de Belo Horizonte até Barão de Cocais. A distância entre a capital mineira e o distrito gira em torno de 90 a 100 quilômetros, dependendo do ponto de partida na região metropolitana.

Outra alternativa é o transporte ferroviário, com o trem que parte de Belo Horizonte e faz parada na estação Dois Irmãos, em Barão de Cocais. Da estação até Cocais, o trajeto final costuma ser feito de táxi ou com algum serviço de guia local, já que não há transporte público direto entre os dois pontos.

+ Leia também: Turistas trocam o agito das cidades grandes pelo sossego desse destino

A gastronomia local também conta a história da região

A produção de quitandas, doces típicos servidos com café ou chá, é um dos pontos altos da gastronomia local. A goiabada cascão feita em Barão de Cocais já é reconhecida como patrimônio imaterial do município, resultado de um modo de preparo passado entre gerações de quitandeiras.

O doce de leite da região também tem identidade própria: mais claro que a versão tradicionalmente conhecida no Sul do país, ele é apontado pelos próprios produtores locais como a receita mais fiel à tradição mineira. Para quem visita Cocais, vale reservar um tempo para experimentar:

  • Goiabada cascão, patrimônio imaterial do município;

  • Doce de leite claro, produzido pelas quitandeiras locais;

  • Feijão tropeiro e pão de queijo, presentes em restaurantes da região;

  • Cachaça artesanal, com degustação em produtores locais.

Entre arte rupestre, igrejas centenárias e cachoeiras que cortam a Serra do Espinhaço, Cocais reúne camadas de história que poucos distritos mineiros conseguem condensar em um espaço tão pequeno. A poucas horas de Belo Horizonte, o vilarejo segue como um daqueles lugares que recompensam quem decide sair da rota mais óbvia.

Cachoeira em Cocais com quedas d’água entre rochas, poço natural e mata ao redor
Cachoeira em Cocais com quedas d’água entre rochas, poço natural e mata ao redor

Cachoeira em Cocais com quedas d’água entre rochas, poço natural e mata ao redor - Foto: Igor Souza

Igor Souza

Igor Souza é fotógrafo, engenheiro civil e criador de conteúdo especializado em turismo, com olhar atento para os encantos de Minas Gerais. Une técnica e sensibilidade para retratar paisagens, construções históricas e experiências autênticas pelo interior mineiro. Além da atuação na engenharia, é apaixonado por contar histórias através de imagens e palavras, valorizando a cultura, a fé e a simplicidade de cada lugar.

Foto do autor da matéria Igor Souza, sorrindo, com os braços cruzados, blusa polo azul escuro e pare
Foto do autor da matéria Igor Souza, sorrindo, com os braços cruzados, blusa polo azul escuro e pare

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