250 anos sem parar de tocar: em São João del-Rei, a Lira Sanjoanense é considerada a orquestra mais antiga das Américas em atividade
Fundada em 1776, quando o Brasil ainda era colônia, esta orquestra mineira nunca parou de tocar e guarda um arquivo com milhares de partituras históricas
Escrito por:
Leonardo Coelho
Publicado em:
27/10/2026
Em 1776, os Estados Unidos declaravam independência e o Brasil ainda era colônia de Portugal. Nesse mesmo ano, em São João del-Rei, um grupo de músicos fechava seu primeiro contrato pago. Desde então, a Lira Sanjoanense nunca deixou de tocar.
Quando a Lira Sanjoanense foi fundada?
A orquestra nasceu em 1776 como Companhia de Música, liderada pelo mestre José Joaquim de Miranda, músico negro. A criação esteve ligada a um contrato com a Irmandade de Nossa Senhora do Rosário.
Muitos dos primeiros integrantes eram negros e pardos. A organização formal e o pagamento regular dos músicos desde o período colonial fazem da Lira o primeiro conjunto musical profissional conhecido do Brasil.
Por que a orquestra mudou tantas vezes de nome?
Ao longo de dois séculos e meio, a Lira passou por novos estatutos, novos regentes e diferentes fases da história do país. Cada mudança deixou sua marca, e o grupo já foi conhecido por quatro nomes diferentes:
Companhia de Música, na fundação, em 1776;
Philarmonica Paulina, a partir dos estatutos de 1846;
Sociedade Musical Lyra São Joannense, em meados do século 19;
Orquestra Lira Sanjoanense, nome encurtado pelo regente Pedro de Souza no século 20.
As comemorações do bicentenário, em 1976, com concertos, palestras e exposição, ajudaram a fixar 1776 como a data de fundação na memória da cidade. Desde então, a Lira é reconhecida como a orquestra mais antiga das Américas a manter atividades sem interrupção.
A música sacra continua no centro do trabalho
No período colonial, a orquestra tocava nas igrejas, mas também em óperas, peças de teatro musical e bailes públicos e particulares. Com o tempo, a agenda religiosa passou a ocupar a maior parte do calendário.
Hoje, a Lira acompanha de perto a vida das irmandades da cidade e de comunidades vizinhas. Para quem visita São João del-Rei, é nessas ocasiões que dá para ouvir a orquestra. Seus músicos estão presentes em diferentes momentos do ano religioso, como:
missas semanais, ao lado da Orquestra Ribeiro Bastos;
novenas e festas das irmandades da Boa Morte, do Rosário e das Mercês;
procissões pelas ruas do centro histórico;
missas de réquiem;
celebrações da Semana Santa;
apresentações em Conceição da Barra e Ritápolis.
O que guarda o arquivo da Lira?
O arquivo leva o nome de Aluízio José Viegas, músico e estudioso que cuidou do acervo. Em 2022, cerca de 2 mil títulos estavam catalogados na parte permanente, e o total pode chegar a 10 mil. Entre os compositores com obras ali, estão:
José Joaquim Emerico Lobo de Mesquita;
Manoel Dias de Oliveira;
João de Deus de Castro Lobo;
Jerônimo de Souza Lobo;
Padre José Maria Xavier.
As partituras vieram de Minas, do Rio de Janeiro, de Campinas, de Portugal e da Itália. Além da música sacra, há peças de banda, ópera, teatro de revista, concerto e até cinema.


Violino antigo e partituras manuscritas sobre mesa de madeira em igreja barroca de São João del-Rei, MG - Foto: Repodução Digital


Fachada da Igreja de São Francisco de Assis em São João del-Rei, MG, com torres barrocas e palmeiras - Foto: Repodução Digital
Qual a relação da Lira com a Orquestra Ribeiro Bastos?
As duas orquestras dividem a mesma cidade e as mesmas igrejas. Uma das hipóteses sobre a origem da Ribeiro Bastos é que ela tenha surgido de uma divisão da Lira, em meio a disputas por contratos com as irmandades.
Na própria Lira, alguns nomes se destacaram. O padre José Maria Xavier, sobrinho-neto do fundador, compunha, tocava e cantava no grupo. No fim da década de 1990, a cantora Maria da Conceição Assis Campos, a Lilia, tornou-se a primeira mulher a presidir a orquestra.
Quem foi o padre José Maria Xavier, nome forte do arquivo da Lira?
José Maria Xavier nasceu em São João del-Rei em 23 de agosto de 1819 e morreu na mesma cidade em 22 de janeiro de 1887. Teve a primeira formação musical com o tio, o compositor e professor Francisco de Paula Miranda, estudou canto e tocava clarinete e violino antes de se dedicar ao sacerdócio e à composição.
Seu nome batiza hoje o Conservatório Estadual de Música da cidade, ligado ao Projeto Orquestra Escola da Lira, e boa parte de sua produção foi pensada para o calendário religioso, com destaque para:
Ofícios de Trevas, da Semana Santa;
Matinas do Sábado Santo;
Matinas da Ressurreição;
Matinas de Natal, que chegaram a ser impressas na Alemanha.
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São João del-Rei é a terra da música e dos sinos
A Lira faz parte de uma cidade onde a cultura mineira está nas ruas e nas torres das igrejas. Quem viaja a São João del-Rei para ouvir a orquestra encontra outros patrimônios a poucos passos, reconhecidos em nível nacional, entre eles:
O toque dos sinos, registrado pelo Iphan como patrimônio nacional em 2009;
Cerca de 700 imóveis no conjunto tombado pelo Iphan em 1938;
A Maria Fumaça, que percorre 12 km até Tiradentes numa ferrovia inaugurada por Dom Pedro II em 1881.
A cidade fica a cerca de 190 km de Belo Horizonte, pela BR-040 e pela BR-265. Para garantir mais 250 anos de música, a Lira mantém o Projeto Orquestra Escola, em parceria com a Universidade Federal de São João del-Rei.
Leonardo Coelho
Leonardo Coelho é um viajante e entusiasta de experiências culturais que revelam a alma do mundo, mantendo sempre vivo o orgulho de suas raízes mineiras. Busca enxergar a física e a química nas nuances da natureza, transformando o movimento da vida em descobertas. Apaixonado pela estrada, encontra seu propósito ao transmitir cada detalhe, sabor e fenômeno que presencia, conectando pessoas através da arte de explorar e sentir o real.


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