150 anos depois da fábrica, a Vila do Biribiri segue de pé dentro de um parque estadual em Diamantina

Rodas d’água moviam os teares, operárias viviam ao lado da fábrica e hoje o lugar junta casas antigas, almoço caseiro e cachoeiras

Escrito por:
Igor Souza

Publicado em:
26/10/2026

Em 1893, uma adolescente de Diamantina escreveu no diário que, morando no Biribiri, não teria pressa nenhuma de chegar ao céu. A fábrica de tecidos que ela conheceu fechou em 1973, mas a Vila do Biribiri segue de pé, com igreja, casas e galpões preservados dentro do Parque Estadual do Biribiri, a cerca de 15 quilômetros da cidade.

Por que uma fábrica de tecidos foi parar no meio da serra?

A fábrica foi fundada em 1876 pelo bispo de Diamantina, Dom João Antônio dos Santos, e por familiares vindos do Serro. Montar uma indústria num vale da Serra do Espinhaço, longe de qualquer centro urbano, exigiu um esforço difícil de imaginar hoje:

  • máquinas trazidas dos Estados Unidos;

  • transporte por mar, rios, trilhos, carros de boi e tropas;

  • rodas d’água, correias e polias para mover tudo, já que ainda não havia energia elétrica.

A produção era quase toda de tecido grosso de algodão, vendido na região e no Rio de Janeiro. Como a cidade ficava longe, a empresa ergueu também a moradia de quem trabalhava ali, num lugar cujo nome vem do tupi e costuma ser traduzido como buraco fundo.

Como era a vida de quem morava na vila operária?

No auge, a fábrica reuniu centenas de trabalhadores, com forte presença de mulheres na fiação e na tecelagem. A menina do diário era Alice Caldeira Brant, que ficaria conhecida como Helena Morley quando suas anotações viraram o livro Minha Vida de Menina.

A vila foi planejada para que a rotina inteira girasse em torno da fábrica. Quase tudo de que uma família operária precisava ficava a poucos passos de casa, numa organização que ainda dá para perceber caminhando por ali:

  • casas para as famílias;

  • armazém para as compras;

  • escola para os filhos;

  • clube para festas e encontros;

  • Capela do Sagrado Coração de Jesus.

O fim da fábrica em 1973 não apagou a Vila do Biribiri

Os custos altos de produção e distribuição levaram ao fechamento em 1973, quase um século depois da fundação. As famílias foram embora aos poucos, mas a Estamparia S.A., dona das instalações, manteve a conservação dos prédios e evitou que o conjunto se perdesse.

O conjunto arquitetônico e paisagístico é tombado pelo Iepha-MG, e a igreja, que ficou anos fechada por risco de desabamento, passou por restauração. Em julho de 2026, os 150 anos foram celebrados com missa, vesperata em frente à igreja e visitas ao Centro de Memórias da fábrica.

Casa colonial da Vila do Biribiri, MG, com portas azuis, paredes brancas e flores vermelhas
Casa colonial da Vila do Biribiri, MG, com portas azuis, paredes brancas e flores vermelhas

Casa colonial da Vila do Biribiri, MG, com portas azuis, paredes brancas e flores vermelhas - Foto: Igor Souza

Polia histórica da Fábrica de Biribiri, MG, utilizada entre 1876 e 1962, exposta na Vila do Biribiri
Polia histórica da Fábrica de Biribiri, MG, utilizada entre 1876 e 1962, exposta na Vila do Biribiri

Polia histórica da Fábrica de Biribiri, MG, utilizada entre 1876 e 1962, exposta na Vila do Biribiri - Foto: Igor Souza

O que dá para ver hoje dentro da vila?

Ninguém mora mais na vila de forma permanente, mas as casas têm donos e o movimento aparece nos fins de semana. O lugar é pequeno, rende mais quando visitado sem pressa, e os pontos principais ficam perto uns dos outros:

  • a Igreja do Sagrado Coração de Jesus, construída em pedra;

  • os prédios da antiga fábrica;

  • as casas pintadas de branco e azul, algumas com restaurantes e café.

Em frente às construções, um gramado amplo recebe visitantes e moradores da região. A comida é caseira, com pratos como costelinha com ora-pro-nóbis e frango ao molho pardo, e em alguns domingos chegam centenas de pessoas. Chegar cedo ajuda a ver tudo com calma.

As cachoeiras do Parque Estadual do Biribiri completam o passeio

Criado em 1998, o parque tem cerca de 17 mil hectares de cerrado na Serra do Espinhaço e recebeu perto de 60 mil visitantes em 2025. Lobo-guará, sussuarana, sempre-vivas e orquídeas estão entre as espécies protegidas na área.

A estrada de terra até a vila passa perto dos principais atrativos naturais, o que permite juntar história e banho de cachoeira no mesmo dia. Estas são as paradas mais procuradas pelo caminho:

  • Cachoeira da Sentinela, a cerca de 7 km da portaria, com poço e piscinas naturais pela trilha lateral;

  • Cachoeira dos Cristais, a cerca de 12 km, com poço grande e bom para nadar;

  • mirantes da Cruzinha e do Guinda, de acesso fácil;

  • Caminho dos Escravos, trecho da Estrada Real aberto no início do século 19.

+ Leia também: O cenário que você precisa visitar pelo menos uma vez na vida

Como planejar a visita saindo de Diamantina?

O acesso começa pela portaria do parque, na saída de Diamantina, e segue quase todo por estrada de terra sinalizada. Dá para fazer o trajeto de carro, mas na época de chuva a atenção ao volante precisa ser maior. A cidade fica a cerca de 290 quilômetros de Belo Horizonte.

A entrada no parque é gratuita, e a proposta de concessão dos serviços turísticos prevê que continue assim, mas a vila cobra uma pequena taxa de visitação. Para ver as cachoeiras com mais água, o período de chuvas é o mais indicado, e vale reservar o dia inteiro para o passeio.

Igor Souza

Igor Souza é fotógrafo, engenheiro civil e criador de conteúdo especializado em turismo, com olhar atento para os encantos de Minas Gerais. Une técnica e sensibilidade para retratar paisagens, construções históricas e experiências autênticas pelo interior mineiro. Além da atuação na engenharia, é apaixonado por contar histórias através de imagens e palavras, valorizando a cultura, a fé e a simplicidade de cada lugar.

Foto do autor da matéria Igor Souza, sorrindo, com os braços cruzados, blusa polo azul escuro e pare
Foto do autor da matéria Igor Souza, sorrindo, com os braços cruzados, blusa polo azul escuro e pare

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